Um grupo de musicoterapeutas, reunidos no Coletivo Sonus, embarcou em uma jornada reflexiva e criativa através de sessões de improvisação musical livre. O objetivo era explorar as profundas possibilidades sonoras e terapêuticas inerentes à música, com um foco especial na orientação Musicocentrada, que valoriza a experiência subjetiva do som e sua capacidade de cura.
A Abordagem Musicocentrada em Foco
A orientação Musicocentrada, termo que remonta à década de 1980, fundamenta-se na crença do poder intrínseco da música como agente terapêutico. Modelos como o Método de Imagens Guiadas de Helen Bonny e a Musicoterapia Criativa de Paul Nordoff e Clive Robbins são exemplos que buscam potencializar os sentidos musicais subjetivos dos pacientes. No Brasil, essa abordagem ganha contornos próprios com o “Modelo de Musicoterapia Musicocentrada” de André Brandalise.
A Experiência da Improvisação Livre
As sessões de improvisação musical livre, realizadas pelo Coletivo Sonus, foram o cerne da pesquisa. A partir dessas práticas, os participantes, que eram os próprios musicoterapeutas, relataram vivências significativas. O estudo, de caráter qualitativo e com abordagem de relato de experiência, utilizou debates em grupo focal após as sessões musicais para coletar dados, analisados segundo a técnica de análise de conteúdo.
Categorias Temáticas Emergentes
Quatro categorias temáticas principais emergiram das narrativas dos participantes:
Senso de Liberdade Criativa: Os musicoterapeutas expressaram uma profunda sensação de liberdade ao criar sem as amarras de padrões pré-estabelecidos. A improvisação permitiu a inclusão de construções musicais inusitadas, impulsionadas pela força criativa.
Superação Lúdica do Erro: A noção de “nota errada” foi transcendida. As sessões incentivaram a exploração sonora de forma lúdica, onde cada som se apresentou como uma possibilidade de caminho expressivo, livre de julgamentos e preocupações com a perfeição.
Audição Acurada e Consciência Sonora: Os participantes desenvolveram uma escuta mais atenta e aguçada, não apenas para o próprio som, mas também para as sonoridades dos colegas. Essa escuta ampliada permitiu um diálogo musical mais profundo e uma percepção mais rica do fenômeno sonoro.
Consciência sobre Si: As práticas de improvisação foram associadas a reações somáticas e emocionais positivas. Relatos de alívio de dores físicas, melhora de humor e uma maior conexão com o próprio corpo e estado emocional foram comuns, indicando um aprofundamento no autoconhecimento.
Reflexões e Conclusões
As práticas do Coletivo Sonus dialogam com teorias como a de Victor Zuckerkandl, que aponta para o poder de atração das notas em um contexto livre de balizas estéticas rígidas. A improvisação, desvinculada de expectativas artísticas puramente musicais, revelou um potencial terapêutico ampliado. Os participantes demonstraram satisfação e uma expansão na compreensão da Musicoterapia de Orientação Musicocentrada, articulando teoria e prática de forma inovadora.
A experiência sonora compartilhada, mesmo que efêmera, resultou em profundas vivências e no fortalecimento individual e coletivo. A superação de crenças sobre o “certo” e o “errado” na música abriu caminho para uma percepção mais crítica e libertadora do fazer musical, reforçando o poder da escuta como ferramenta de encontro e diálogo.